E PARA ACABAR, O AMOR

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Hoje é noite de lua cheia.
Na verdade mesmo, não é.
Afinal, lua cheia é só um dia.
Os demais é transição.

Hoje é transição.
Mas para mim é lua cheia,
Dessas bem redondas e completas.

Porque a lua não deixa ser lua
Por estar mais cheia ou vazia,
Certo?

Às vezes ela até está oculta.
Escura.
Sumida.

Sabe… Isso tudo é sobre o amor.

Hoje é dia de amor cheio.
(Ou talvez transição).

Mas amor, é amor mesmo
Até escondidinho,
Escuro,
Sumido…

Ainda fico pensando,
Dia trás dia,
Que que aconteceu
Há milhões de anos,
Para aquele homem olhar
Encher o peito de calor
E, pela primeira vez, dizer
“Eu te amo”.

Talvez mesmo,
Não estejamos falando do homem…

E no princípio era o verbo
E o verbo era amar.
Transito direto.
Ponto final.
Porque amar não pode ser indireto,
Não pode ser nas entrelinhas,
Jogado ao ar,
E mal falado.
Amar é plenitude,
É direto,
Olho no olho,
Mesma respiração,
Mesma intenção.
É amar e ser amado,
Perdoar e ser perdoado,
Compreender e ser compreendido.
Amar é virtude,
É razão e origem,
É princípio de tudo.
E no princípio era o verbo.

E no princípio também era transição,
De nada para tudo,
De silêncio para o murmúrio dos mares,
Do inerte para a vida.

De ser para amar.

No fim das contas,
Amar é transição,
E ser e estar,
Mas também mudar e mover.

Hoje é noite de transição.
E quando algo começa,
Outro acaba.

Então, hoje,
Antes de dormir,
Pense nas suas últimas palavras.
Elas são a transição de hoje
Para amanhã.

Porque amanhã
Ainda será noite de lua.
E todas as luas
São as minhas preferidas.

Especialmente a de agora.
Cheia.
De amor.

Gustavo Henrique Costa


Este é o primeiro poema de 2017, especial para o dia dos namorados e marco fim da história curta, singela e doce do “Um Drink de Verso”.

Agradeço o carinho que todos tiveram durante esses anos e coisas novas virão por aí… espero que as encontre por aí.

Caso eu reúna todas essas meias palavras em um livro, avisarei com todo esmero.

Um beijo, adeus e, para acabar, o amor!

LUA

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Poemas Capa

Ela gosta da Lua.
Talvez porque ela mesma
Seja de lua.

Ela gosta da Lua.
E tudo que acontece de bom
É porque é dia de lua.

Ela gosta de Lua.
E seus olhos são duas
Bem grandes.

Ela gosta de Lua.
Porque a Lua não tem luz própria,
Apenas reflete o sol.
E seus olhos são duas bem grandes,
Que refletem a luz da alma.

“O que há com a Lua,
Que todas as vezes que a vemos
É com o súbito espanto da primeira vez?”

E o que há com ela,
Que toda vez que a vejo
É com a súbita paixão da primeira vez?

Gustavo Henrique Costa

CRÔNICAS DE UM PAULISTA(NO) #01 “O HOMEM QUE SABIA QUEM O AMAVA”

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Comecei uma nova trajetória na minha vida, onde vim para a terra da garoa.
Menino do interior mudando para cidade que mantém a esquerda livre para quem tem pressa.

É engraçado ser poeta numa cidade de sonhos silenciados pela música do metrô andando nos trilhos intrepidamente.
Mas, em um dos raros momentos que alguém fala com você, eu conheci o tal homem-que-sabia-quem-o-amava, como ele se auto intitulava.

Questionei-o por de imediato, também eu sei quem me ama.
E talvez, caro leitor, você ache que a partir daqui esta história seja fantasia. Talvez o seja, mas aquele homem possuía uma habilidade especial que ia além das minhas conclusões óbvias.
ELE REALMENTE SABIA QUEM O AMAVA.

– Por exemplo, ele começou a dizer, aquele rapaz ali me ama.
– Ama?
– Não digo que ama. Amar é algo bem forte. Mas ele sente uma atração por mim.
Eu ri. Mas ele me olhou severo. Controlei-me.
– Aquela moça ali também. E aquela. E aquele. E mais aquele.
Foi apontando discretamente para cada um.

Chegamos numa estação onde muitos saíram e poucos entraram. Sentamos.
– É triste saber quem gosta de você.
– Triste? Eu fico pensando nisso o tempo todo. Iria poupar muitos foras que levo dia e noite.
Ele riu. Pela primeira vez ele riu e foi sua risada que me fez acreditar nas próximas palavras dele.
– Eu levo fora o tempo todo.
Estagnei. As contas matemáticas não batiam: aquele um mais um estava dando zero? É isso mesmo?
– Uma coisa, meu companheiro de viagem, é você saber quem gosta de você, outra é saber ser uma pessoa de quem as pessoas gostam. Às vezes eu queria o poder da dúvida, o gelo na barriga, o medo de uma negativa. Quando a gente tem certeza de tudo, a vida fica sem graça. Queria um dia ter a coragem. Coragem só temos se tivermos medo.
A informação foi densa.

O mais triste desta história foi que a estação do homem-que-sabia-quem-o-amava chegou e ele saiu.
Eu fiquei. Comigo mesmo pensando em tudo aquilo.

Não sobrou nenhum nome, nenhum telefone, nenhum contato. Apenas a lembrança de alguém triste porque sabia quem o amava. E nada podia fazer.

Foi assim que surgiu minha primeira lição de paulista(no):
“A magia da vida não está em ser amado, mas em conseguir sê-lo”.

(Já a primeira lição foi que você nunca reecontrará as mesmas pessoas no metrô, por exemplo a Jaque. Mas essa é outra história).

SEGREDO

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Conte-me seus segredos,
Aqueles mais escondidos,
Aqueles que ninguém sabe,
Aqueles que talvez nem você saiba.

Quero saber sua cor preferida,
Mas também a cor que usa
Para pintar um elefante
Quando está na beira de um rio.

Quero saber sua comida preferida,
Mas também aquela que comeu
Com doze anos numa praia
E nunca mais voltou a comer.

Quero olhar nos seus olhos
Ver você pequena dentro deles.
Ver você adulta no futuro deles.
Ver você nua em seus segredos.

Conte-me seus segredos,
Deixe-me tocar suas mãos,
Sentir a umidade que elas têm
De secar lágrimas.

Deixe-me tocar suas mãos,
Seu rosto corado de vergonha,
Seu ombro pesado com tudo
Que você suporta na vida.

Deixe-me fazer parte de você
Como você faz parte de mim.

Deixe-me contar um segredo:
Você é meu segredo maior!

Gustavo Henrique Costa

ATRÁS DA LINHA

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Poemas Capa
 
Ando de cabeça baixa.
Julgo que alta é arrogante
E média é curiosa ou atenta.
 
Ando de cabeça baixa,
Porque vivo absorto
Em minhas fantasias.
 
Ando de cabeça baixa,
Porque sou escritor e poeta
E sempre há um conto ou poema,
Uma história ou personagem a criar.
 
Ando de cabeça baixa,
E fiz aquele caminho
mil cento e vinte e três vezes.
(sim, eu contei).
 
Ando de cabeça baixa,
Até que, ops, o que é isso?
Nunca o tinha visto ali antes:
Um telefone.
 
Sabe aqueles orelhões?
Pois havia um.
No meio do meu caminho habitual
E nunca o tinha visto ali antes.
Seu telefone, fora do gancho.
 
Ando de cabeça baixo.
Mas ergui-a.
Procurei alguém.
Porque estava fora do gancho?
 
Havia uma energia ali.
Talvez alguém do outro lado da linha.
Talvez uma notícia ruim deixada pela metade,
Talvez uma lágrima inconsolável,
Talvez uma notícia tão boa,
Que só um abraço e um beijo a expressaria.
 
O que havia
Atrás da linha?
 
Aproximei telefone a ouvido.
Chiado.
 
– Alô?
 
Seria isso tudo
Uma brincadeira da vida,
Para me dizer que telefones
Podem ser pessoas?
 
Gustavo Henrique Costa

FOTOGRAFIA

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Breu.
Escuro.
Olhos cerrados.
Respiração pausada.
Respiração pausada.
Respiração.
Respira.
Ação.

Click.

Abre o diafragma.
Entra a luz.
Entra muita luz.
Fecha diafragma.
Expira.
Expiração.
Escuro.
Breu.
Gravado na memória.

Ficou bom?
Dessa vez ficou perfeito.
Sorriso.

Se apaixonar
É tão parecido com fotografar.

Às vezes pode não dar certo.
Às vezes sai com careta,
Um par de olhos fechados,
Ou um borrão indesejado.

Às vezes esconde-se
Atrás de lentes,
Culpa-se a falta de luz,
Ou aquele ângulo incorreto.

Mas uma coisa é certa:
Amar
E fotografar
São paixões
Feitas de primeiras vistas.

Não importa
Quantas vezes tenha visto.

Como o Sol,
Ou a Lua:
Mesmo os tendo visto
Centenas de vezes,
Cada click
Será como se fosse o primeiro.

Tudo se trata de percepção,
De inspiração.
Inspiração.
Inspira.
Ação.

Click.
Luz.
Amor.

Gustavo Henrique Costa

SIMPATIA

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Não sendo suficiente
Todos os meios usados,
Apelei à simpatia.
Na primeira quarta feira do mês,
No sexto mês do ano,
No ano da misericórdia.
Acendi uma vela,
Vermelha.
Abri o vinho.
Vermelho.
Sentei-me à mesa.
Cara a cara.
Falou-me do passado,
Do presente e do futuro.
Surpreendi-me.
Falei do passado,
Do presente e do futuro.
Tudo bateu.
Surpreendemo-nos.
Ficamos assim,
Em silêncio um tempo.
Horas depois
Estava ali,
Frente a mim,
O amor da minha vida.
Apelei à simpatia.
E deu certo!
E aquela moça tão simpática,
Naquele dia avulso da vida.
Aquele jantar à luz de vela,
Aquele vinho pouco envelhecido…
Ah, falamos do passado.
Do que somos
E dos nossos sonhos.
Havia empatia ali.
Havia simpatia.
(E houve também um beijo!)
Gustavo Henrique Costa

UMA MOSCA VIVE TRINTA DIAS

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Fiquei pensando nisso ontem, quando uma veio me atazanar a vida.
Perdoei-a, pois, enquanto eu perdia alguns minutos de vida com seu importuno, ela perdia anos-de-vida-mosca (se adotarmos uma regra de três comparativa e porcentual).

Quantos pores do sol essa mosca será capaz de ver?
Trinta, resposta rápida e curta.
Mas pergunto-me se ela terá tempo, em sua vida agitada e curta, de parar alguns minutos diante de um alaranjado mudo e inodoro para apenas contemplar.
Achará ela nisso um momento mágico de meditação e união com seu criador, ou apenas um show de cores sem nenhum significado?

Quantos dias de vida ela dedicará a apenas voar por aí, sem pressa ou preocupação com seus afazeres?
Trinta, no máximo, resposta rápida e curta.
Mas será que ela gastaria um trinta avos da sua vida dedicando a si mesma, sem se preocupar com seu trabalho, sua profissão e futuro?

Será que ela espera ansiosa pelo fim de semana, para ir ao parque relaxar?
Será que ela espera um feriado pra descer à praia?
E se ela nascer no dia primeiro de junho? Junho não tem feriado! A vida dela será inteira sem feriado?
Que ambiguidades! Que paradoxos que essa mosca precisa viver todo dia!

Fiquei decepcionado por tê-la espantado tão ferozmente. Quiçá queria ela apenas cumprimentar-me ou explorar um lugar que, no mundo das moscas, é uma das sete maravilhas. E eu a espantei, fi-la desistir de um sonho. Desperdicei minutos preciosos de sua vida.

Achar-me-ia estranho se realmente minha decepção fosse essa, se acreditasse nessa personificação barata.
Usei-a como máscara, apenas.
Decepcionado estava porque há pessoas que podem contar nos dedos quantos pores do sol eu já contemplaram.
Porque almejam sair por aí sem preocupação, mas vivem presos a um salário mensal.
(Nossa! Uma mosca não usufrui de seu salário ao fim do mês!).
Porque vivem a espera de fins de semana e de feriados, suportando as segundas-feiras.
Porque sequer sabem quais são as maravilhas do mundo.

Talvez a mosca apenas despertasse em mim que também corro o risco de uma vida de mosca, proporcionalmente maior, é claro, mas intensamente menor.

E ao final, quiçá, nem usufrua de meu salário por ter vivido.

Gustavo Henrique Costa

ADICTOS

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Poemas Capa

Adicta.
Adicto.
Serviu-me outra dose.
Bebi-a.

Viciada
Em me viciar.
Serviu-me outra dose.
Bebi-a.
Fá-lo por sarcasmo.
Falo com marasmo.

Serviu-me outra dose.
E outra.
E outra.
Servir era tudo que sabia fazer.
Uma dose
Era a resposta para tudo
Bebi-as todas.

Adicta
No hábito de servir.
Adicto
No hábito de ser servido.

Num segundo sóbrio,
Elogiei-lhe o hábito,
Em pensamento, claro.
Não queria que soubesse
Que estava ébrio
Por seu sorriso.

Sorriu-me.
Bebi a dose.

Gustavo Henrique Costa

CARTA PARA ALGUÉM QUE JÁ AMEI

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25 de Fevereiro de 2016

Minha muito querida,

Minha professora sempre insistiu que toda carta devia ter cabeçalho.
Pergunto-me se essa é necessário, em se tratando de contar nossa história sem pé nem cabeça.

Gostaria de saber, em primeiro, como está. Se finalmente entrou na faculdade que queria ou se está vivendo do próprio negócio. Ou os dois, por que não?
E sua mãe? Continua com aquele carinho de sempre? Aquela torta de frango dela continua deliciosa? Ela me passou a receita por e-mail, mas nunca consegui dar o sabor especial.
Vi que seu pai foi pescar no último fim de semana. Finalmente alguém o tirou das preocupações do trabalho. Fico imaginando as histórias de pescador que ele voltou contando.

E quanto a você? tenho acompanhado sua vida.
Não que eu seja um perseguidor, longe disso. É que um dia eu a amei.
Venho pensando sobre algumas coisas, queria expô-las a você.
Incrível como é a vida. Um dia estamos sentados num bar, ou saindo com amigos, ou pegando um ônibus para voltar pra casa e nos deparamos com alguém. Uma estranha. E por qual razão eu não sei, começamos a conversar.
Estranhos se tornam conhecidos. Conhecidos se tornam empáticos. Empáticos se tornam amigos. Amigos se tornam amantes…
Como a linha do amor é tênue: ontem, duas pessoas a mais no mundo. Hoje, duas pessoas se somando.

Essa á aparte que você lê e pensa: “sabia que ia sentir falta. Sabia que ia vir atrás”.
Parte a qual tenho o prazer de concordar, mas também refutar.

Sim. Sinto a sua falta.
Não a senti por um período de tempo. Senti até repulsa. Mas hoje sinto, sim, sua falta.
Cara, eu te disse “eu te amo”. E se tem uma parte da minha que é verdade é quando disse que estava do lado negro da força apoiando o Darth Vader e quando disse ‘eu te amo” olhando nos seus olhos. (Espero que não associe o meu “eu te amo” com o lado negro da força. São coisas distintas).

Não. Não estou vindo atrás.
Não me arrependo do nosso fim. Talvez me arrependa de como as coisas terminaram. Mas havia de terminar. Ambos sabemos disso.
Não que esteja vindo atrás, mas gostaria muito de ter você ao meu lado. Se eu me entreguei totalmente, a você é porque eu confiava, é porque eu amava.
Não concebo a ideia de existir no mundo, andando por aí, tomando sorvete todo fim de semana, uma pessoa na qual eu possa confiar e conversar e rir, e eu não fazer isso.
As pessoas me perguntam sobre você, e eu mostro com orgulho sua foto. Olha como é linda, falo para elas. Gostaria de ver seu sorriso de novo.

Não concebo a ideia de que o ciclo continua. Parecendoo O curioso caso de Benjamin Button:
Estranhos se tornam conhecidos. Conhecidos se tornam empáticos. Empáticos se tornam amigos. Amigos se tornam amantes…
Amantes se tornam amigos, que se tornam empáticos, que se tornam conhecidos, que se tornam estranhos…
Enganei-me milhares de vezes dizendo que fiz de tudo para que voltássemos a nos ver.
Enganei-me dizendo que mandei mensagens e mensagens.
Enganei-me colocando a culpa em você.
Talvez tenha chegado ao ponto de você não querer me ver mais, ou não querer me responder.
Mas me engano em achar que nisso não há culpa minha.

Talvez antes eu não acreditasse que poderíamos ser amigos.
Hoje eu venço meu orgulho e acredito piamente que podemos e devemos sê-lo.
Talvez antes achasse que ia sentir ciúme pra sempre você.
Hoje eu sei que uma pontinha pode existir, mas quero me divertir vendo você ser cortejada por outro.
Talvez antes eu achasse que ia ser estranho se nos encontrássemos na rua.
Hoje eu queria saber exatamente qual ônibus você pega para dar um oi.
Talvez antes…
Talvez…

Vou imprimir essa carta agora. Espero não guardá-la na gaveta como tantas outras declarações que já fiz a você. Afinal, essa é diferente.
Espero que a leia e que um dia nos encontremos.

A você, alguém que já amei, eu digo que ainda amo, numa forma diferente e mais pura:
Você é a minha melhor amiga e eu a amo por ser assim.

Despeço-me dizendo a você o que disse alguns meses depois de nos conhecermos:
“Conheço um restaurante muito bom aqui perto, que tal amanhã às 20h?”

Com amor,